Os marcianos de Budapeste
Pesquisando sobre ensino de ciências nas escolas, deparei-me com este texto de Carlos Fiolhais, Físico português. Achei tão interessante que reproduzo aqui (os grifos são meus). O original está em: http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Recortes/CFiolhais_Budapeste_PJ_20020916.htm
Carlos Fiolhais
A Hungria entre as duas guerras mundiais (ambas perdidas pelo lado em que a Hungria estava) foi um autêntico viveiro de cientistas. Houve um grupo que nasceu e estudou em Budapeste a que até chamaram os “marcianos” pois não pareciam deste mundo: Eugene Wigner, um físico (originalmente engenheiro químico) que ao mesmo tempo desenvolveu a mecânica quântica e lançou as bases da engenharia de reactores nucleares; John von Neumann, talvez o maior matemático do século XX (um dos grandes responsáveis pelos computadores e pela computação moderna); Edward Teller, um físico (ainda vivo) que explicou a origem da energia das estrelas e desenvolveu armas termonucleares, etc. Todos estes emigraram para os Estados Unidos, à semelhança de muitos outros cientistas europeus confrontados com a ameaça nazi.
Budapeste, a capital húngara à beira do rio Danúbio, é ainda a terra natal de Dennis Gabor (inventor da holografia), Andrew Grove (fundador da empresa de processadores Intel), Theodor von Karman (especialista em mecânica de fluidos e em astronáutica), Arthur Koestler (romancista e crítico, que se aventurou por temas de ciência, nomeadamente nesse livro notável que é “Os Sonâmbulos”), Leo Szilard (cientista atómico, que pediu a Einstein para escrever ao presidente Roosevelt alertando-a para a possibilidade da arma atómica), Albert Szent-Gyoergy (o médico que identificou a vitamina C), Erno Rubik (o criador do famoso cubo de Rubik), George Soros (financeiro e filantropo), etc., etc. Para não falar já de génios da música como Bela Bartok ou Franz Liszt ou de pintores como Victor Vasarely ou, embora menos conhecido, Arpad Szenes (o marido da “nossa” Vieira da Silva a quem um dia impediram de ser português).
Como explicar esta proliferação de cientistas e outras personalidades notáveis? A resposta a esta questão é extraordinariamente simples: porque a Hungria, e em particular a sua capital, teve (tem?) uma boa escola, uma escola que permitiu desenvolver da melhor maneira as potencialidades dos alunos que a frequenta. E a boa escola é feita pelos bons professores.
Tomemos o caso de Eugene Wigner, Prémio Nobel da Física, de quem estamos a comemorar os 100 anos (nasceu em 1902, como outros grandes físicos – o italiano Enrico Fermi e o inglês Paul Dirac – e faleceu em 1995, portanto com a avançada idade de 93 anos). Wigner nasceu no lado de Peste, o centro comercial e económico de Budapeste (do outro lado, Buda, é mais o centro histórico) e frequentou o Liceu Luterano de Budapeste, uma escola do mesmo lado da cidade na margem do Danúbio. O Liceu Luterano é uma escola extraordinária (além de Wigner acolheu o seu amigo John von Neumann). A memória dos seus professores do liceu, em particular o seu professor de matemática de nome Lászlo Rácz, nunca abandonou Wigner ao longo da sua longa vida. Ouçamo-lo muitos anos mais tarde:
“Muita água passou no Danúbio desde que me banhei nele. O tempo, porém, não apagou a gratidão que tenho pela minha terra natal. Não esqueci que foi o meu breço e que me apoioi nos meus primeiros estudos. Raramente deixo passar uma oportunidade de expressar a minha gratidão aos meus professores e ao Liceu Luterano de Budapeste. Nunca esquecerei os meus professores, entre os quais o meu professor de matemática László Rácz, um pedagogo autêntico e um homem muito cordial, que despertou em mim o amor pela matemática“.
No mesmo escrito Wigner rememora também o seu professor de Física, Sándor Mikola:
“Tenho orgulho emn dizer que depois de dois anos de estudo da Física com ele no liceu, os cursos de Física na Universidade Técnica de Budapeste e na Escola Técnica Superior de Berlim pareciam quase ser uma mera repetição.”
Wigner que depois foi professor e investigador em Princeton nos Estados Unidos, conservou sempre no seu gabinete de trabalho uma fotografia do seu antigo professor de matemática. Mais: nos seus anos mais avançados fazia regularmente os exercícios de matemática do liceu, do seu antigo professor. Tendo-lhe um jornalista perguntado por que é que um Prémio Nobel da Física fazia exercícios de matemática elementar ele respondeu: “Como sabe, as faculdade mentais diminuem com a idade se não forem devidamente exercitadas”.
O segredo da escola luterana era, de facto, os seus bons professores. Entre 1873 e 1924 nove professores desse liceu foram nomeados membros da Academia das Ciências Húngara (sita num belo edifício, em Peste, logo depois da Ponte das Correntes). O professor de matemática de Laszlo era editor de um jornal de matemática para o ensino secundário. O professor de Física Mikola foi autor de vários artigos de investigação. Ambos conviviam com professores universitários, a quem passaram os seus famosos alunos quando verificaram que já não lhes podiam ensinar mais nada (também conviviam com os alunos fora da escola, reunindo-se com alguns deles num café aos sábados). Quanto aos equipamentos do liceu, bastará referir que a biblioteca tinha em 1900 mais de dez mil volumes e assinava 27 periódicos, o laboratório de história natural 2600 espécimes de minerais e 2357 exemplares de borboletas. O ensino da Física e da Química era evidentemente experimental.
Para se entender melhor o que é um bom professor de matemática, vejamos o que um colega de Rátz escreveu na ocasião do seu óbito:
“Ele reflectia cuidadosamente o melhor material para cada lição e mantinha os alunos atentos pela sua dedicação pedagógica e pela sua cativante personalidade. O interesse e a vitalidade das suas aulas não diminuiu com o tempo – continuava a ensinar com o mesmo ardor juvenil nos anos anteriores à sua reforma. Para além da sua formação científica, ele conseguia entrar no mundo interior dos seus alunos, uma habilidade que usava para escolher da matéria e transmitir aos seus alunos o que tinha mais valor de uma maneira que todos o compreendiam. Não apresentava a matemática como uma disciplina teórica e abstracta mas mostrava aos seus alunos permanentemente a sua relação estreita com o dia a dia. Tentava desenvolver nos seus alunos a capacidade de pensar matematicamente e, em virtude de uma preparação sistemática, as verdades matemáticas apareciam naturalmente aos estudantes. Devido a essa técnica, a matemática, que tantas vezes é vista como uma disiciplina difícil, tornava-se um assunto estudado com entusiasmo e interesse. Os seus alunos não conheciam a ansiedade com os exames, porque aqueles que seguissem as lições bem prepradas e bem conduzidas de Rász conseguiam resolver os problemas com facilidade.”
Quanto a Mikola, o professor de Física de Wigner e von Neumann, ele próprio foi autor de textos pedagógicos onde expunha a maneira de ensinar Física:
“Há uma técnica especial que parece que foi pensada para a Física: é o método ‘heurístico’ de ensino. Colocando questões apropriadas, o professor consegue orientar o pensamento do aluno em direcção ao assunto, promover a apreciação das experiências e das reacções instintivas que estão no limiar do conhecimento, e direccionar os pensamentos dos estudantes para a busca do essencial [o escrito é dos anos 20, muito antes da moderna psicopedagogia].”
Com professores como estes, o insucesso é impossível. Afinal o segredo dos génios, dos “marcianos” de Budapeste, reside nos professores deles.
LIVROS PARA SABER MAIS
- Lásló Kovács, “Eugene P. Wigner and his Hungarian Teachers”, Szombathely / Hungria, 20002.
Pequeno livro biográfico sobre Eugene Wigner e os seus professors do liceu.
*Físico
tcarlos@teor.fis.uc.pt
http://nautilus.fis.uc.pt/cfiolhais